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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Entrevista - 28



Ele já foi locutor de Rádio, é um apaixonado pela música, há três anos toca na Banda Laboratório Muderno, grupo este que é um verdadeiro laboratório de sons que se misturam no samba-rock ao funk-soul. Graduado em Comunicação Social ele é professor e doutorando em Sociologia pela UFPB. Além disso, um pesquisador ligado nos movimentos sociais. Fabiano Pereira é mais um santarritense que faz a diferença.


SIÉLLYSSON - Em maio de 2013, antes das manifestações que sacudiram o Brasil, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), em parceria com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República realizou estudo sobre a juventude brasileira, utilizaram os mesmos modelos de perguntas do estudo "Meu Mundo", realizado pelas Nações Unidas, cerca de 11 mil pessoas de todo o país escolheram, entre 16 temas, quais são as prioridades de cada jovem entrevistado. Em primeiro lugar ficou a necessidade de uma educação de qualidade, com cerca de 85,2% e em último lugar ficou mais oportunidade de trabalho, com 46,9%. O ponto de partida das manifestações de 2013, melhores transportes, foi citado como prioridade por 40% dos jovens brasileiros. Como você analisa esses dados onde, em primeiro lugar, estaria a necessidade de educação de qualidade e, no entanto, ninguém fez movimento para isso? Por sua vez, em 2013 houveram grandes manifestações pela necessidade de transportes de qualidade com preços mais baixos.

FABIANO - Penso que uma coisa não está dissociada da outra. As reivindicações por melhorias nos transportes públicos têm implicações na vida das pessoas que vão além do mero fato da baixa dos preços dos transportes. Estamos falando do direito à cidade, da possibilidade de se poder usufruir de um sistema de transporte público que nos permita ir a shows, teatros, museus, festas de rua, ao parque, às praças, às escolas etc. e fazer uso disso tudo tanto para nosso lazer quanto para nossa formação.

Este direito nos é negado quando temos um preço abusivo das passagens. Assim, o que sobra para a população mais carente é apenas o direito de ir ao trabalho num ônibus lotado em percursos que levam, em muitos casos, horas pra ir e horas pra voltar. E o que resta para o trabalhador (ou o estudante) após uma jornada como esta? Muitas vezes, sentar em frente à televisão e depois ir dormir pra amanhã começar tudo novamente.

Certamente os protestos contra a má qualidade da educação em nosso país são mais localizados. É bem mais fácil vermos as pessoas reclamando, do que ir às ruas exigir mudanças. Mas isto tem a ver com o fato de termos deixado a educação chegar ao ponto que chegou e de, muitas vezes, não visualizarmos nela uma possibilidade de mudança e emancipação. Vivemos numa sociedade que valoriza o consumo (visto como objeto de distinção entre classes) e, para alguns, a maneira mais rápida de se chegar a consumir os objetos disponíveis no mercado não é através da educação, pois se demoraria muito. Não quero com isso dizer que a educação é o único meio possível para a emancipação e a mudança, mas sem ela tampouco daremos o primeiro passo.

SIÉLLYSSON - O PT teve seu início impulsionado pelas greves trabalhistas em 1978. Na década de 1980 os movimentos sociais se fortaleceram, vimos uma organização partidária de cunho operário organizado e protagonizando manifestações de massa como "Diretas Já" pelo fim da Ditadura. Depois da disputa eleitoral de 1989, na qual o PT estava representado por Lula, este perde as eleições para Fernando Collor. Logo após os escândalos de corrupção de Collor, os estudantes tomam as ruas exigindo o "impeachment". O PT sempre esteve marcado por grandes mobilizações, só que desta vez o PT está do outro lado da mesa. Você acredita que as manifestações de junho de 2013 e os protestos contra a Copa podem minar a campanha de reeleição de Dilma Rousseff?

FABIANO - As duas situações que você compara acima – o impeachment de Collor e a reeleição de Dilma – são bem distintas, muito embora coloque esta última numa situação mais ou menos parecida com a do primeiro. Acredito que há pessoas e grupos interessados em tirar proveito desse momento. Os protestos fazem parte da democracia, são legítimos. O que vimos nas manifestações de junho de 2003 foi um protesto que tomou corpo a nível nacional, impulsionado pelas redes sociais, e que diversas pautas de reivindicações acabaram sendo levadas para o debate, indo além das questões dos transportes público.

No entanto, muitos devem lembrar, vários grupos que participaram das manifestações  estavam interessados em criar uma situação de instabilidade política. Foi neste momento que diversos grupos radicais apareceram e mostraram a cara nas manifestações. Acredito que estamos vivendo um momento em que vemos surgir uma onda reacionária que, ao que parece, vem se organizando e ganhando espaço tanto na mídia quanto na mente de alguns.

Exemplos não faltam: a edição atual da Marcha da família com Deus, o crescente apoio de parte da população a uma nova intervenção militar etc. Sem falar no caso da jornalista Rachel Sheherazade e seus comentários reacionários e preconceituosos. Muitos encontraram nela uma espécie de porta-voz para os “verdadeiros problemas do Brasil”. Mas não só ela, há também figuras ligadas a música, intelectuais, colunistas de revistas e até mesmo, o que é pior, um grupo de políticos que tem crescido cada vez mais em Brasília trazendo como pauta questões retrógradas como, por exemplo, a propositura de uma sessão solene em homenagem ao golpe militar de 1964, encaminhada à Câmara Federal pelo Deputado Federal e ex-militar Jair Bolsonaro. Felizmente não foi aceito.

O que se viu logo após os protestos foi uma queda de popularidade da presidenta Dilma (apenas 27% avaliaram positivamente o seu governo na época, segundo pesquisa do Datafolha). Agora (abril de 2014) houve uma recuperação e a aprovação do governo Dilma é de 36 % (Datafolha). Este ano tem um diferencial: é ano de eleições, sem falar da insatisfação de muitos brasileiros com os gastos da copa. Tudo pode acontecer.

SIÉLLYSSON - O Movimento Passe Livre (MPL) teve sua fundação em 2005, ao ser impulsionado por movimentos sociais espontâneos pelo país, como Revolta do Buzu, ocorrida em Salvador, em 2003, e pelas Revoltas da Catraca, ocorridas em Florianópolis, em 2004 e 2005. O MPL se definiu como um movimento social autônomo, apartidário e independente em seu financiamento, inspirou-se nos "novos movimentos sociais". Durante 8 anos de trabalho se fortaleceu nas escolas secundaristas, contra o aumento da passagem de ônibus em 2006, 2010 e 2011. A manifestação de 2013 em São Paulo tomou uma proporção gigantesca se espalhando por todo país. Este ano, devido à morte do cinegrafista da Band, a mídia divulgou que há interesses por parte dos manifestantes de minar o governo federal. Como você valia tudo isso?

FABIANO - Primeiro temos que deixar claro que o Movimento Passe Livre não tem nada a ver com isso. O MPL se apresenta enquanto um movimento autônomo e apartidário que tem como objetivo discutir a questão da mobilidade urbana e o direito de ir e vir do cidadão que, nas condições atuais, fica comprometido devido aos altos preços cobrados pelas empresas de transporte público. Além disso, há também a questão da reivindicação de um sistema de transporte público verdadeiramente eficaz que ponha fim ao caos dos grandes centros urbanos.

Acredito que a morte do cinegrafista da Band foi um evento infeliz o qual caiu como uma luva àqueles interessados em criminalizar os movimentos que vinham ocorrendo. Não só isso, mas também de encontrar a todo custo, entre os culpados, políticos ligados a partidos de esquerda que estariam financiando grupos mais radicais de manifestantes. A mídia, é claro, entrou nessa, como não poderia deixar de ser.

Estamos vivendo um momento em que vemos surgir uma espécie de polarização ideológica que tem se tornado cada vez mais visível. E há por parte de um desses polos a intenção de criar situações de instabilidade e de crítica feroz ao governo da Presidenta Dilma. Isto ficou claro nas manifestações de 2013 e, atualmente, nas críticas que tem sido feitas contra a Copa de 2014. Tudo isso tem sido pensado de forma que atinja diretamente a Presidenta Dilma criando uma situação de instabilidade e de insegurança em relação ao seu governo, principalmente neste ano de 2014 que é ano de eleições.

SIÉLLYSSON - Jornais diziam coisas parecidas com esta citação "Foram os jovens que iniciaram os protestos no Brasil e motivaram outras parcelas da população a aderirem”, dizem especialistas. “Manifestantes não veem liderança única e afirmam que pauta diversa não enfraquece movimento" no início do manifesto, mas logo a Revista Veja trouxe um líder em suas folhas amarelas. O movimento realmente teve um líder?

FABIANO - Precisamos estar atentos ao que é veiculado pela mídia, tendo em mente que a verdade pode ser apenas um ponto de vista e que, muitas vezes, este ponto de vista, pregado enquanto verdade, pode agir no sentido de atender aos interesses de grupos midiáticos e políticos que aí estão.

As “jornadas de junho”, como ficou conhecido os protestos de junho de 2013, não teve um líder ou um centro de onde partiram as decisões. Tudo começou com o protesto do pessoal do Passe Livre, daí, com a repressão policial, as manifestações tomaram corpo nacional e várias pessoas foram às ruas. Mas não teve um líder e este fato é uma das principais características desta manifestação. Talvez algo inédito na história das manifestações aqui no Brasil.

Inclusive, muitas das pessoas e grupos que foram às ruas criticaram os partidos e as formas engessadas e verticais de tomada de decisão da política tradicional. Desta forma, vimos diversos movimentos nas ruas protestando, cada qual com suas bandeiras e pautas, mas nenhum deles à frente do protesto.

O que a Revista Veja fez foi eleger “um líder” com um discurso que se aproximasse do seu. Basta fazer uma busca rápida na internet e ver que esse cara, o Maycon Freitas, é pra lá de suspeito com frases machistas e com um discurso reacionário e fascista e foge do perfil de um líder de qualquer movimento que seja. Um cara que diz pérolas como: "Não somos de direita ou de esquerda, nem de centro", não deve ser levado a sério. Com se diz na linguagem do mundo virtual: esse cara é fake!

SIÉLLYSSON - Dizem que o povo brasileiro é um povo pacífico, parado, adormecido. As manifestações de junho de 2013 mostrou o contrário ou foi apenas um modismo?

FABIANO Se formos recorrer à história vamos perceber que não somos nem um pouco um povo pacífico. Revoltas populares como a de Palmares, Canudos e Cabanagem, só pra citar algumas, nos mostram que nossa história é marcada pela ação popular organizada contra as injustiças sociais cometidas por uma elite com base latifundiária, retrógrada e reacionária que tem origem no Brasil colônia até os dias atuais. Neste sentido mudamos muito pouco. É sempre esta mesma elite atrasada que se reveza no poder. E quando vemos alguém do povo e dos movimentos que ascende na política – como foi o caso de Lula – é possível ver algumas mudanças significativas, mas sem que altere a lógica do jogo.

Acho que precisamos voltar mais à história pra vermos que as mudanças significativas não virão por outra via que não seja a tomada do espaço público e a exigência de direitos básicos que nos são negados cotidianamente. Não podemos dizer que as manifestações de junho foram um modismo. Foram, penso, o início de algo maior do qual ainda ouviremos muito e que seu desdobramento ainda está pra acontecer.

SIÉLLYSSON - Como você avalia a atuação do movimento estudantil hoje na Paraíba?
FABIANO - O movimento estudantil é o tema da minha tese que ainda vai levar um tempo pra ficar pronta. Ainda estamos começando a trilhar um caminho que traga mais elementos que possam nos ajudar nesta resposta.

O que posso dizer agora é que o movimento estudantil (ME), não só aqui na Paraíba, mas em todo Brasil, vem passando por um momento de reestruturação de sua organização e ação política. É cada vez mais forte a crítica que se faz ao modelo de militância tradicional verticalizado e que tem à frente uma liderança centralizadora causando uma espécie de engessamento organizativo. Acredito que estamos passando por um momento de reconfiguração das práticas estudantis de intervenção no espaço público e que podem apontar para novos formatos de organização mais horizontais e menos centralizadores.

Com a redemocratização vimos que o ME se fragmentou e, desde então, as grandes manifestações estudantis cederam espaço para protestos mais localizados como: aumento das passagens, repressão nos campus das universidades, a má gerência de algum órgão da universidade (o restaurante universitário, por exemplo) etc. Talvez a última grande mobilização estudantil a nível nacional tenha sido os “Caras Pintadas”, exigindo o impeachment do ex-Presidente Fernando Collor. De lá pra cá o ME perdeu um pouco de fôlego e isso acontece no Brasil todo, inclusive aqui na Paraíba. Por isso, penso que estamos passando por um momento de reestruturação do ME, um momento de reconfiguração de sua organização e ação política em que as novas tecnologias e as redes sociais têm um papel muito importante nesse processo.


SIÉLLYSSON - Você tem uma banda chamada "Laboratório Muderno". Qual é o estilo de vocês? Quais são as pretensões artísticas?

FABIANO - Pois é, a banda é, digamos, o lado lúdico da coisa, mas não menos importante (risos). Desde a minha adolescência sempre participei de grupos musicais, a música sempre fez parte da minha trajetória.

A Laboratório Muderno é o projeto atual do qual faço parte. Na verdade, não existe um estilo único, pois partimos de uma proposta tropicalista de fusão de tudo aquilo que nos é influência. Costumo dizer que o nosso som segue a linha samba-rock funk/soul, mas que não se limita a isso. Temos umas músicas que, se formos classificar, poderíamos chamar de brega e umas coisas com uma pegada mais reggae misturado com dub. Temos várias músicas autorais que já dariam pra gravar um cd. E nossa pretensão é essa: gravar nosso som e mostrar para o público.

FABIANO - Você é santa-ritense envolvido com música, com arte e mora em João Pessoa. Pelo acesso a cultura que há na capital, como você avalia o panorama cultural de Santa Rita?

Santa Rita é a cidade do futuro! Temos tudo que uma grande cidade precisa: água à vontade (as maiores fontes de água mineral estão em Santa Rita), a cultura da cana de açúcar e seus derivados como a cachaça; a cultura do abacaxi etc. etc.; um território enorme que caberia duas cidades João Pessoa dentro e ainda sobraria espaço (risos).

Temos também um potencial enorme para o turismo, possuímos três bens tombados pelo patrimônio histórico federal que são: a Capela do antigo Engenho Una (atual Engenho Nossa Senhora do Patrocínio), a Igreja de Nossa Senhora das Batalhas e a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Além disso, vários grupos populares de lapinha, coco de roda, poetas e repentistas. Temos também um movimento de rock e resistência no bairro de Tibiri.

O grande problema de Santa Rita não é seu povo, mas os governantes. Saímos recentemente das mãos de dois grupos que se revezaram no poder durante décadas. Todos eles ligados a uma elite oligárquica atrasada originária da exploração canavieira. Nos livramos destes e caímos nas mãos de um louco que depois de anos tentando se eleger, ao chegar ao poder, coloca toda a família na prefeitura e passa a governar para si próprio.

Portanto, nosso atraso é, primeiramente, um atraso político que se reflete em outros setores. No entanto, este atraso não impede que as manifestações artísticas e culturais existam na cidade. Elas existem, mas não circulam (ou circulam muito pouco) e assim não tomamos conhecimento. Talvez esta seja a principal diferença em relação ao que acontece, em termos culturais, em João Pessoa. Mesmo com todas as críticas que existem (e que são legítimas), o artista de João Pessoa tem mais espaço pra mostrar seu trabalho. Na capital existe uma lei municipal de incentivo a cultura, alguns (poucos) espaços para shows e apresentações, além da tentativa de incluir o artista local nos eventos promovidos pela prefeitura etc., coisas que não vemos em Santa Rita.

Tínhamos uma grande esperança com Valdir Lima à frente da secretaria de cultura. Mas o prefeito que governava para si próprio não deu espaço e nem autonomia para seus secretários. Acredito que com a experiência de Valdir poderíamos ter dado um grande salto na área da cultura em Santa Rita. Mas é preciso que a população se organize e passe a cobrar políticas públicas para a cultura na cidade. Como diz o provérbio: quem não pede Deus não ouve.

Sobre A Banda Laboratório Muderno:
Quem se interessar pode procurar nossa fanpage no Facebook (https://pt-br.facebook.com/LaboratorioMuderno).

terça-feira, 11 de março de 2014

Entrevista 27


Ele não recebeu nenhum título de cidadão santarritense, mas fez em 28 anos pela cidade o que muitos políticos não realizaram uma vida inteira. Ele usou o talento cênico como a arma contra a violência e contra a dura realidade da periferia, modificou a sua vivência na cidade que o destino escolheu para ele, assim como moldou a vida de muitos jovens que encontraram no teatro o caminho da felicidade e do estudo. Professor de história, apaixonada pela arte, sentimento que o fez construir em sua casa um teatro, criou um grupo cênico Taty, levou o nome da cidade de Santa Rita para a imprensa e para muitas localidades paraibanas com a peça “A Paixão de Cristo”. Homem simples, talentoso, reflexivo, ousado, nasceu para nos ensinar de que é possível realizar sonhos. Aprenda um pouco mais sobre o teatrólogo

Ivonaldo Rodrigues

SIÉLLYSSON – Você quando você começou atuar?

IVONALDO - Eu tinha frequentado circo lá no interior, mas era algo modesto; certa vez eu vim pra casa de uma tia que morava em Bayeux e onde hoje é a Estação ferroviária de Bayeux havia um pátio grande e nesse pátio tinha um circo, minha tia morava em Tambaí, aí meu primo disse “Ivonado, vamos acompanhar o palhaço” e fomos. O palhaço com toda aquela propagando de rua, ao término o rapaz nos carimbou pra assistirmos o espetáculo à noite, coincidentemente naquela noite o espetáculo teatral era “A história dos Reis dos Reis”, a história de Jesus Cristo. Antigamente qualquer circo que tivesse influência no meio do povo tinha que ter um teatro. Aquilo me deixou louco lá no poleiro (bancos), o palco era giratório, ao término de uma cena, já aparecia outra cena, um trabalho lindo. A partir dali o encanto tomou conta de mim.

SIÉLLYSSON - Você tinha quantos anos na época?

IVONALDO - Tinha de 8 pra 9 anos. É tanto que no outro ano eu estava estreando a minha peça teatral lá no interior. Acho que tudo começou dali, de ter deixado ser tocado e tocar ao mesmo tempo... (risos).. Meio louco, né cara?

SIÉLLYSSON - Hoje você é pioneiro em na cidade de Santa Rita com seu teatro que está completando 20 anos, digo, 20 anos de casa de espetáculo, porque no movimento teatral você já vem atuando há 28 anos. Agora lhe pergunto: por que escolheu Santa Rita para isso? Ou foi a cidade que lhe escolheu para você abrir sua casa de espetáculo?

IVONALDO - Eu acho que foi Santa Rita que me escolheu, talvez tenha um quê de destino pra que as coisas venham a acontecer. Quando eu morava em Bayeux, na casa da minha tia, (pausa para as lembranças) Eu não sei por que uma cidade tão bela quanto Santa Rita carrega um estigma tão grande em termo de violência como Santa Rita tem carregado pelo menos nesses 50 anos. Eu digo com 50 anos porque estou com 55 e já conheci a cidade com essa fama. Eu tinha medo de Santa Rita. Eu morava em Bayeux e assim como hoje as pessoas já falavam mal de Santa Rita, naquela época eu ouvia um programa chamado “Dramas e Comédias da Cidade” era um programa de rádio que falava da violência da Paraíba como um todo, Santa Rita estava sempre presente, e na minha época eu ia crescendo ouvindo aquilo tudo, isso me deixava apavorado. Era uma fase sensível que não me fazia compreender a violência, e dizia “nunca na minha vida eu vou morar em Santa Rita”, (ressalva:) mas isso na minha fase de criança. O tempo passa, morando em João Pessoa me inscrevo na CEAP para casas populares da Paraíba, eu fiz inscrição pra Mangabeira e quando recebo a chave da minha casa me disseram: “você vai morar em Santa Rita, Tibiri II”, eu fiquei pensando, mas não tinha alternativa, fui morar em Tibiri. Quando vou vivendo, me deparando com a realidade com os problemas sociais que tínhamos lá em Tibiri II, faltando tudo: água, energia, calçamento. Eu disse: “Poxa! Tenho que fazer alguma coisa pra o engrandecimento disso aqui. Pelo menos naquilo que por ventura eu saiba fazer”, pensei no que eu sabia fazer... era teatro. Então envolvi o teatro e a comunidade, sempre falo isso, não por orgulho, mas por satisfação imensa que pela primeira vez, - que eu tenho conhecimento - , Santa Rita foi aos jornais por uma coisa boa que era o teatro que surgia em Tibiri II. Isso me alegrou demais. Hoje tenho um carinho todo especial por Santa Rita, ela me abriu os braços e me acolheu e essa minha dedicação, ao pouco que faço em termo de cultura em Santa Rita é como se fosse um “muito obrigado” por esse abraço, por esse carinho que a cidade teve por mim e por minha família.
Hoje não me vejo morando em outra cidade. É tanto que minha mulher durante um tempo queria sair pra João Pessoa, pra as crianças estudarem melhor, mas eu nunca quis; quis mudar sim quando teve um período de chuva muito grande e Tibiri virou uma lagoa e minha casa estava no meio da lagoa, tive que passar 8 meses fora, fui a contragosto. Hoje amo Tibiri, amo Santa Rita... Tem coisa que na vida parece que está reservado pra você viver e se torna prazeroso quando você se depara com a realidade e você diz “é esta, eu tenho que vencer, eu tenho que modificar o ambiente em que estou”. Todo ser humano tem essa função social e de tornar menos dolorosa a realidade sua e de quem está ao seu redor.



SIÉLLYSSON - você diz que a cidade de Santa Rita abriu os braços e lhe acolheu. Você tem 20 anos de casa de espetáculo e 28 de teatro em Santa Rita. Você leva o nome da cidade pra imprensa, Santa Rita passa a ser vista com bons olhos pelo seu trabalho. Você já recebeu apoio do governo municipal?

IVONALDO - Hoje vejo meu trabalho de uma forma mais séria, não que no início não fosse sério, sempre foi sério... O bem que fiz a comunidade em que estou inserido durante esses 28 anos foi algo gratificante. Durante esses 28 anos nenhum dos que estiveram com a gente se perderam, isso pra mim é uma felicidade imensa. Temos pessoas em vários segmentos profissionais. Alguns chegaram ao teatro sem rumo, hoje muitos deles são formados; foi construído um falecesse e eles acreditaram em si, então, eu sempre digo que nunca precisei, entre aspas, porque todo mundo precisa, agora eu nunca precisei que o poder público chegasse e me bancasse em alguma coisa pra eu fazer algo acontecer, pra isso eu tive e tenho meu trabalho e minha força que Deus me deu e minha inteligência que Ele continua me dando. Sempre trabalhei, minha esposa sempre trabalhou; só que precisava e ainda preciso de uma ajuda pra que este trabalho dê frutos mais positivos do que já vem dando. A gente que trabalha com a arte, precisa está sempre atinado, ler muito...

SIÉLLYSSON - até por que se têm gastos grandes com figurino...

IVONALDO - Sim. Pra você ter uma noção temos 28 anos de paixão de Cristo, mesmo que façamos de acordo com nossa realidade mas sempre estamos trazendo algo novo, é a história do sagrado, mas relacionada à plasticidade, senão, não seria arte seria igreja, fé. Temos uma proposta além do social e do religioso a proposta artística, o belo que podemos tirar de tudo isso. Então, estamos constantemente necessitado de investimentos, por isso eu disse e eles (aos atores) “se vocês querem continuar vão ter que bancar os personagens de vocês, porque não tenho mais condições. Durante muito tempo tirei do meu.” Isso gerou algumas situações desagradáveis no meu relacionamento, porque tirava do nosso orçamento familiar pra produzir teatro. (com ar de riso ele me diz) Quando somos jovens não pensamos muito, né? Hoje já com a idade madura eu penso: “Poxa, tanta coisa deixei de fazer pra minha família pra fazer pela arte.” (fixa os olhos em mim e diz com firmeza) Não me arrependo também não, porque isso me trouxe satisfação, mas poderia ter sido diferente esses 28 anos. Não tivemos apoio necessário, mas eu vejo de forma ampliada. Eu tenho consciência que a cultura, a arte no município não se resume a arte que e faço: teatro. Temos movimentos culturais maravilhosos aqui em Santa Rita, pessoas e movimentos que precisam de um olhar diferente, jovens que poderiam ter sido “salvos” se uma oportunidade tivesse sido oferecida. Por que não esta oportunidade via teatro, via música ou outro segmento cultural qualquer, já que a cultura é tão atuante dentro do município, quando encontramos tantos valores nas artes? Se você parar pra observar nós temos um jardim aqui, só que é um jardim que nasce viçoso mas não tem água e sol pra dar construção a esta vida cultural que está surgindo.
Então, assim como o movimento cultural que acompanho que é o teatro, nós tivemos muito pouco reconhecimento de quem estava ou quem está no poder. Hoje temos (ele trata aqui do seu grupo cênico) os dois maiores eventos; Paixão de Cristo com 28 anos e o Festival de teatro com 20 anos, são movimentos que estão no conhecimento lá fora, as pessoas sabem o que está sendo feito em Tibiri, em Santa Rita. Mesmo assim, tivemos momentos dificílimos para que pudéssemos dá continuidade a esses projetos.
Eu nunca exigi valores, mas tivemos gestores que quando nos deu algo, era como se fosse um “Cale a boca” dá por dar ou prometia e endividávamos e nunca chegava a ajuda e ficávamos com dívidas no comércio devido a produção da Paixão de Cristo e eu tive que saldar depois com meus recursos. Tudo isso me deixou triste porque eu sei que estava construindo algo bom que a comunidade estava acreditando, que lá fora estão vendo, o nome do município indo pra os jornais, indo pra outras cidades pra onde levamos a Paixão de Cristo, fizemos mais de 10 cidades interioranas na Paraíba. Em algumas cidades deixamos de ir, porque os jovens de lá após ver nosso trabalho passavam a produzir em suas cidades. Isso é um prazer muito grande! A cidade ficava evidenciada.
Veja, durante muito tempo em Santa Rita se pensou que o grupo Taty era de João Pessoa, mas era ali, no quintal de Tibiri, falta de que? Divulgação do município. Eu acho que se precisa urgentemente olhar com outros olhos pra os movimentos culturais de Santa Rita oriundos das periferias, onde a maioria são jovens que precisam de credibilidade, pessoas que estão em período de formação e construção da sua personalidade, muitas vezes procuram a cultura pra se moldar e não encontram. Acho que tanto este gestor quando qualquer outro que venha pela frente em nosso município tem e terá uma obrigação maior do que cidades como João Pessoa e Campina Grande, pelo atraso em que vivemos. Não dá pra se compreender uma cidade com o porte de Santa Rita, a 3ª do estado e até em território e ficar nesse atraso cultural.



SIÉLLYSSON - depois de ter edificado um teatro, hoje com 20 anos de construção, um trabalho social impecável dentro da arte comunitária, você se sente realizado? Você tem a sensação de dever cumprido?

IVONALDO - Ainda não. Quando dizemos que estamos realizados, então, não temos mais nada a oferecer, morreremos. Temos que está sempre acreditando em possibilidades maiores. Bom... Foi feito? Foi. Mas, ainda se tem muito que fazer, ou por mim ou por outros, mas tem. No meu caso, quando eu comecei a fazer teatro, em Tibiri, eu fiz uma pesquisa na época na comunidade e dos dez professores de educação artística que eu entrevistei nenhum deles conhecia teatro ou teria ido assistir a uma peça teatral na vida. Olhe que eram pessoas ligadas ao meio da arte. Hoje Tibiri cresceu de tal modo que as pessoas saem de Tibiri pra ver teatro em João Pessoa, isso é um progresso muito grande, o teatro de tornou conhecido, mas ainda é limitado, se o cara tem um aprimoramento cultural ele estará sempre buscando, mas imagine que, tem muita gente que nem sequer conhece teatro e nós temos que correr atrás pra mostrar que o teatro pode ser um caminho pra molecada que está surgindo e querendo dar voos novos, é por isso que eu acho que eu, você,... você como agitador cultural, nós temos uma responsabilidade muito grande, não podemos nos sentir satisfeitos com o pouco que construímos.




SIÉLLYSSON - Você é um dos pioneiros do teatro aqui em Santa Rita. Que mensagem você daria para o pessoal que quer se aventurar nos caminhos da arte cênica?

IVONALDO - Eu posso na arte ser pioneiro, só que quando eu cheguei aqui tomei conhecimento de pessoas que já tinham passado dentro desse movimento. Eu estou simplesmente carregando o bastão por um momento. (fixei bem nos seus olhos e me emocionei, lembrei de imediato de muitas pessoas que não estão entre nós, de movimentos culturais fortes, mas que não resistiram aos descasos administrativos, nesse momento ele cita alguns pioneiros que conheci) Como é o caso de Hélito Santana, que tive oportunidade de conhecê-lo e ele se apresentou no meu teatro, Seu Geraldo que teve um trabalho interessante. Então são os nomes que conheço, mas com certeza tiveram outros em tempos mais remotos que vieram com sua contribuição. O que eu quero pra juventude é que olhem pra o passado, porque pra nos tornarmos fortes temos que olhar pra o passado, pra os movimentos culturais passados, pra nossa memória e utilizar esse pessoal (os pioneiros) como referência e segurar o bastão pra que possamos modificar isso tudo. Não podemos ficar nos lamentando que Santa Rita seja uma das cidades mais violenta da Paraíba, se eu não faço nada pra reverter este quadro. Nós temos dentro do nosso meio social, seja ele qual for, mecanismos que podemos usar como armas pela paz. Não podemos nos deliciar, - com todo respeito - com esses programas de Rádio e TV que vão usar como exemplo a morte, “Está acontecendo isso... não vão fazer”, mas o ser humano é um bicho astucioso, ele ver algo errado, pode até não querer, mas de algum modo termina se contaminado, do mesmo modo como ele ver alguma coisa boa, como a arte. Na arte ele se contenta, ele se acha...

SIÉLLYSSON - Ele se “contamina” com o que é bom, né?

IVONALDO - (risos dele) exatamente!




OBS: vejam no marcador ENTREVISTAS outras personalidades santarritenses que já passaram pelo "Café com Siéllysson"


Fotografias: Danielle Tavares e Rafael Freitas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Em junho de 2010 Siéllysson entra em estúdio fotográfico de Lulinha Jr para produzir a imagem que serviria como a contracapa do seu segundo livro O Lado Negro da Fé, as fotos também seriam utilizadas para ilustrar seu site oficial que estava sendo produzido na época, o site não vingou, mas a imagem escolhida por Siéllysson para o livro foi em preto e branco porque segundo ele "ira corresponder ao mesmo padrão do primeiro livro Santa Rita: a herança cristã do Real ao Cumbe" Vejam algumas das fotos:

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Pensando sobre intimidade encontrei um texto lindo da jornalista Marta Medeiros, utilizei um trecho para descrever e nortear uma sessão de fotos onde as imagens fossem vistas de maneira espontânea, natural como a intimidade de uma casa, de uma pessoa; quem realizou este trabalho foi o fotógrafo campinense André Pimentel, em janeiro de 2014.

"Intimidade é não ter vergonha de ser o que a gente é, não precisar explicar coisa alguma, ser compreendido e brigar sabendo que nada irá se romper. Intimidade é não precisar andar na ponta dos pés pelos corredores de uma vida compartilhada."

(Martha Medeiros é uma jornalista e escritora brasileira. É colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.)



sábado, 8 de fevereiro de 2014

Entrevista 26



Ele é incansável pela aprendizagem na arte de fazer cinema, fez da sétima arte sua grande paixão. Pessoas simples e artistas são imortalizadas por sua câmara, como ele mesmo diz que “quero dá-lhes a imortalidade por meio do cinema.” Gláucio Souza é mais um santarritense que faz a diferença.



Graduado em Comunicação Social pela UFPB, participou de formações em cursos pela Cannes e pela NPB voltados para o cinema, eterno estudante de cinema como ele mesmo diz: “Minha formação tem sido construída ao longo do tempo e da observação”. Encantado por arquitetura e decoração, comunicativo e um excelente observador, ele transformou minha tarde e minha casa num espaço criativo onde as cores das frutas e adereços da mesa pudessem ter a harmonia do cinema. Esperou o sol não estourar a luz da câmara, modificou todas as posições do que estava sobre a mesa, rindo disse-me “Sua mesa tem um quê de Almodóvar, você é tão Almodóvar”, foi nesse tom cinematográfico que nosso papo rolou entre um café e outro.


SIÉLLYSSON – Quando você se interessou pelo cinema?

GLÁUCIO - Eu me interessei pelo cinema através da música. Sempre fui apaixonado por música aí toda música a qual eu gostava, eu começava a criar meus próprios filmes, logo estava criando clips imaginários, por gostar muito de música acabei virando cineasta, porque aquelas imagens internas me fazia querer criar alguma coisa.

SIÉLLYSSON – O que você queria ao produzir o documentário “ Tibiri Caderno 2”?

GLÁUCIO - O cinema documentário “Caderno 2” foi uma necessidade, eu via um grupo de artistas fazer as coisas de uma forma muito independente naquele local e eles articulados entre si. Vi tudo isso e achei que era injusto que aquilo acontecesse e passasse, senti necessidade de tornar aquilo eterno, tornar aquela realidade eterna.

SIÉLLYSSON – “Essas senhoras” é um documentário de muita sensibilidade! O que mais lhe chamou atenção no tema pra gravar esse filme?

GLÁUCIO - “Essas Senhoras” é um filme que muito me emociona. Precisava registar aquilo, aquelas práticas que estão morrendo, acabando. Acho que o documentário tem essa função social de dá à eternidade aquilo que é merecido. Daqui a 50 anos as pessoas vejam como tudo começou ou como era há 50 anos. É como a história (Ciência) alguém chega e escreve sobre o que está acontecendo na conjuntura atual aí, eu como historiador escrevo o que ninguém teve interesse de escrever. O meu registro é a minha maneira cidadã de contribuir com a história. Cinema é cidadania também.




SIÉLLYSSON – “Tibiri Caderno 2” foi seu primeiro documentário. Você acha que teve o respaldo merecido pelos artistas e pela população, até porque você trabalhou uma cultura barrista (Tibiri II), você acha que este teve a mesma consideração que teve seu segundo documentário “Essas Senhoras”?

GLÁUCIO - Considero “Caderno 2” um álbum de família porque existe muito afeto neste documentário. Antes de ser um filme é um álbum de família porque eu tenho muito afeto por cada um que está ali. Eu tenho consciência que ao contemplar Tibiri II e cada um que está no filme, eu não estava contemplando o todo, faltou muita gente, eu poderia ter feito mais só que essa também foi uma escolha minha; era meu primeiro documentário, para mim, não era só pegar a amplitude da arte em Tibiri. É um documentário barrista? É sim, mas tem muito mais gente fazendo arte em Tibiri II, mas o que eu queria era registrar o pessoal que está conectado. Existe gente que está fazendo arte só que mais isolada, não desmerecendo esses, mas como era uma coisa do meu universo particular, eu acabei fazendo o registro deles.
Sobre o artista produzir algo particular eu acho que é algo típico de artista, de não ter medo de mostrar aquilo que é seu.
Eu queria fazer um documentário sobre a arte em Tibiri II, mas a partir do meu olhar. É o meu olhar sobre aquilo. Se não existir nada meu sobre aquilo é apenas uma reportagem. Tem muito de mim nos cortes, nos registros, numa pegada de câmara em tudo o que escolhi. Coletamos mais de 6 horas de depoimentos, o corte final ficou com 19 minutos. É como se eu estivesse usando argila pra fazer artesanato. Na arte não existe a neutralidade total, existe o toque de quem faz.
Com este documentário eu quis mostrar que existe uma forma de viver no bairro de Tibiri II que é diferente daquilo que se passa nos telejornais. O Caderno 2 no Jornal da Paraíba é a parte da cultura, então seria Caderno 1 a parte social, a violência, já o “Caderno 2” seria o lado B, a outra parte...

SIÉLLYSSON - B de bom...

GLÁUCIO - (risos) É. Esta é a parte que a TV não mostra. Eu queria mostrar que além de tudo aquilo também existe opções de cultura naquele lugar. E por que a ideia do documentário? Todo artista deseja que sua arte seja reconhecida aos quatro cantos do mundo. Só que se a arte existir só pela fama, pelo sucesso ela é pequena demais. A arte existe porque, como diz Ferreira Goulart porque “viver só não é suficiente, viver só não basta” e aí existe pessoas de arte e tem um emprego. Acho que todos que estão naquele filme vivem de arte com exceção de Sandrac que trabalha ensinando música, o restante todos vive de arte e tem um emprego paralelo pra sustentar a família. São pessoas comuns pra quem a arte significa muito e que provavelmente não terão nomes eternizados como Cartola entre outros, um ou outro pode sair, mas todos não vão. Tibiri II e Espaço Múltiplo é muito maior do que se ver ali. Quando você vê um artista tem que entender o meio dele, de onde veio. Você ver Zé Ramalho e entende que dali ninguém mais saiu, então, existe um montão de amigos de Zé Ramalho que vivia a arte junto com ele. Às vezes apenas um daquela parte se destaca e fica o amigo Pedro, como citou Raul Seixas. “Tibiri caderno 2” foi o olhar pra um ambiente de artista, de uma trupe, uma caravana de artistas que embora diversa estão sempre juntos por ali, um contemplando a arte do outro e vivendo por isso mesmo. Não importa se estão ganhando dinheiro ou gastando pra fazer o show, Ivonaldo é um exemplo disso, não quer enriquecer com seu teatro. Ele fez o teatro para manter a arte cênica viva dentro de Tibiri, isso pra mim é maior. A pretensão dele é a mais simples e verdadeira do mundo, ele não quer tornar o teatro dele o maior da Paraíba; ele quer manter o teatro vivo em Tibiri. (próximo entrevistado do Café com Siéllysson) Sandra Alves é o desejo de manter todo mundo junto, isso é maravilhoso! Sandra Alves é o centro que une; ela sozinha é um Centro Cultural (gargalhadas). Centro Cultural Sandra Alves porque ela consegue agregar muita gente, ela consegue juntar todos os tipos de artistas, isso é próprio dela, aí acabava atraindo as pessoas pra o Espaço Múltiplo. Isso é uma coisa muito bonita. (Veja a entrevista exclusiva com Sandra Alveshttp://siellyssonfrancisco.blogspot.com.br/2013/10/entrevista-produtora-sandra-alves-para.html)
Em “Tibiri Caderno 2” o que mais quero é mostrar que a arte existe independente do que queiram mostrar por fora, independente do que os telejornais como o de Samuca queira mostra ou não, vai existir a arte em Tibiri.

SIÉLLYSSON - Seu trabalho “As senhoras” foi exibido na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Qual a importância das Mostras de Cinema pelo país?

GLÁUCIO - A mostra de cinema pelo país é interessante, mas tenho muito desgosto de que até um tempo desses, o filme ter ido pra Goiás, pra Minas e ter rodado bastante e não ter rodado em Santa Rita (observação: esta entrevista foi realizada antes da exibição da mostra visual realizada pela ONG Espaço Múltiplo, em meados de janeiro desde ano), isso é muito ruim pra mim. Você manda seu filme pra uma mostra em Tiradentes, que pra mim é uma das melhores mostras de cinema do Brasil, extremamente conceituada. E parece que temos uma necessidade que o mundo nos aponte pra que os nossos nos reconheçam, então isso é triste! É lógico que quantas vezes eu for selecionado pra Tiradentes eu vou porque a cidade é maravilhosa, o festival também o é, mas pra mim, exibir o filme em Santa Rita é muito mais importante do que exibir meu filme em Cannes porque é onde eu tô. Isso aconteceu com Lucy Alves, que depois de aparecer na TV Globo todo mundo vira fã dela, quando antes nem davam o valor merecido ao seu talento. Se eu não presto pra os meus, se presto pra os outros, eu continuo não prestando pra os meus. É importante que nos reconheçam. Por que prefiro vir em sua casa e passar uma tarde dando entrevista? Porque pra mim é mais importante dá uma entrevista a você do que dá uma entrevista ao jornal O Globo, porque eu analiso: “os meus me valorizam, me consideram”. Isso é gostoso; isso dá vontade de continuar fazendo arte porque os seus lhe consideram. Esse negócio de ser reconhecido lá fora pra depois ser reconhecido aqui dentro, isso é muito cruel e pequeno. Por esse motivo eu dei e dou valor a Sandra Alves, ao Espaço Múltiplo, aos artistas de Tibiri II, porque são pessoas que estão contemplando um a arte do outro. É Alan Pear fazer um show no Beco da Cachaçaria e ir todo mundo. (Entrevista com Alanhttp://siellyssonfrancisco.blogspot.com.br/2013/09/entrevista-com-o-musico-alan-pear-para.html) Claro que são importantes os festivais na história do seu filme, porque você vai dizer “esse filme participou de tais festivais” – É ótimo pra sua carreira, você ganha nome, até quando você sai daqui, mas nada paga o seu dia a dia.

SIÉLLYSSON - Você leva o nome da cidade de Santa Rita para outros estados. Já recebeu apoio de empresários ou do poder público?

GLÁUCIO - No início dessa gestão atual eu tive o prazer de ter um amigo que era secretário de cultura. Eu não fui procurá-lo, Valdir sabendo da necessidade cultural da cidade, ele veio até a mim e me pediu propostas. E com toda boa vontade eu fiz projeto de mostras de cinema, porque pela primeira vez eu via o poder público se mobilizando, aí levei pra ele, ficou todo animado, mas a proposta foi abortada por conta do atual prefeito que falou que essas coisas não dão votos. E realmente não dão votos. (risos). Eu não posso vender meu filme, dizendo “apoie meu filme que dá voto”. Já os empresários não têm uma ideia do que é isso – vou ser bem sincero – não tem pra que um empresário em Santa Rita investir em cinema. Por quê? Porque tudo é uma relação de troca. Pra que um empresário vai investir em cinema se em Santa Rita não tem Mostra de Cinema pra que ele veja o seu investimento sendo transformado em propaganda de sua empresa? Eu levo meu filme pra Patos, Rio de Janeiro e... tá lá “apoio cultural Mercadinho Tal”. Quem é de Patos que vem de lá fazer feira no mercadinho dele? No meu último filme “Vasto Mundo” eu precisava de coisa pouca; eu precisava de 300 reais de lanche pra equipe, o cara de um supermercado falou que iria dá, mas inventou uma história, porque isso não interessa a ele. E em João Pessoa eu fui pedir a uma rede de supermercado que terei uma projeção do filme na cidade e em outros estados, seria interessante pra ele. O gerente de marketing achou pouco e ia patrocinar, mas o Gerente Geral disse: “Não. Não vamos patrocinar porque esse filme é de Santa Rita” (risos) O filme é do mundo, mas é lógico que eu sendo santarritense não vou chegar lá dizendo que sou de João Pessoa. O filme seria interessante pra eles por serem uma rede. Em Santa Rita a gente não consegue e quando a gente vai pra outros lugares não consegue por ser de Santa Rita. (gargalhada dele) Aí dificulta!

SIÉLLYSSON - Seu filme “Essas Senhoras” foi exibido no festival de Areia. Qual foi a reação das pessoas mais simples? Se identificam com as personagens?

GLÁUCIO - O Festival de Areia foi um desrespeito do Estado para com o Áudio visual. Colocaram a gente numa escola com um projetor muito ruim, com qualidade péssima de áudio, praticamente quem estava por ali, eram realizadores e pessoas mais envolvidas com arte. A gente não teve um feedback tão interessante da população de Areia ou de quem foi ao festival. Eu acho que o Festival de Areia pra mim foi mais uma exibição. Não houve a emoção que eu queria que existisse devido à desorganização.

SIÉLLYSSON – “Essas Senhoras” também foi exibido numa mostra cultural da FIP. Qual a importância dessas instituições na divulgação do seu trabalho?

GLÁUCIO - A interiorização do cinema paraibano é uma coisa maravilhosa. O Cinema Farinha ao qual você está se referindo promovido pela Faculdade Integrada de Patos - FIP, eu acho um festival maravilhoso, acontece na Praça onde as pessoas da cidade vão assistir aos filmes. Isso pra mim é fantástico porque tô levando meu trabalho pra dentro do meu estado; é a sensação de ainda está em casa. A interiorização do cinema paraibano é uma coisa maravilhosa, a cidade de Santa Rita deveria criar vergonha na cara e seguir, porque a gente não pode viver dependendo de João Pessoa, somos dependentes da cultura de João Pessoa. Tudo o que a gente quer tem que ir a João Pessoa. Às vezes uma cidade como Patos que está entre 4 a 5 horas de distância de João Pessoa tem uma riqueza de oportunidades culturais...

SIÉLLYSSON - ... Santa Rita sendo a quarta cidade da Paraíba em arrecadação...

GÁUCIO - A quarta em arrecadação, a terceira maior cidade do estado, eu não entendo isso: a gente sempre a mercê do que está acontecendo em João Pessoa, sempre dependente do Extremo Cultural, das mostras como Cine Port, Fest Aruanda. Agora mesmo teve Fest Aruanda no MegShopping, como é que um cidadão de Santa Rita vai acompanhar uma amostra de cinema que está acontecendo no Meg shopping? Onde ele terá que pegar 2 ônibus e pra voltar e estará totalmente comprometido por uma questão de segurança, corre o risco de não encontrar ônibus pra voltar pra Santa Rita. Até quando estaremos dependentes do que João Pessoa tem pra oferecer?

SIÉLLYSSON - Você acha que a computação gráfica está tirando a beleza da 7ª arte? Os documentários são meios de preservação do cinema como arte?

GLÁUCIO - Pra mim tudo é uma questão de escolha e de repertório. É como a música eletrônica, existem músicos que não usam bateristas, eles aparecem nos shows, mas na hora de fazer a música é feita no computador. Mesmo com computação gráfica não deixa de ser cinema. No momento em que a tecnologia nos é ofertada a gente tem a opção de usar ou não. Por exemplo, eu não trabalho com computação gráfica, com efeitos, mas já utilizei muita coisa da tecnologia na finalização de áudio, de cor, de imagem... já utilizei muito desse artifício. Uma cor que você ver no final do vídeo não feito na Câmara e sim no estúdio, até porque você faz a imagem seca e depois tem mais tempo pra pensar nas cores, isso tudo requer tempo aí você dedica-se no estúdio. Hoje em dia a gente tem essa facilidade, claro que tem gente que abusa disso. Eu não faço, mas vejo muitos trabalhos que são bons, e se fazem a gente pensar, tá valendo!




SIÉLLYSSON - Que mensagem você deixa para quem quer se aventurar no mundo dos documentários, do cinema?

GLÁUCIO - Se desprenda de dinheiro você não vai enricar! Desprenda-se do dinheiro e concentre-se na arte. Embora seja a arte mais cara, justamente você precisa se desprender dele (risos). Segundo, você precisa ter muita humildade pra aprender diariamente, você nunca vai saber tudo, porque o cinema se renova e tem muitas possibilidades. O cinema é um universo que vai desde a luz ao som, onde você pode brincar e fazer tudo. Você precisa está disposto a aprender, você precisa de sentimento altruísta. Na arte a gente precisa considerar tudo, escutar as opiniões inclusive de quem não faz cinema, pois o cinema é uma arte coletiva. Cinema não é a sua arte, mas a junção de artes de muita gente pra se resultar numa harmonia.




Recado para Gláucio Souza: "Essas imagens são inéditas. A proposta do café não ´e a exibição do que foi gravado, por este motivo suas últimas imagens (filmagens e testes de fotografia que foram feitas nessa entrevista) serão doadas para o acervo da ONG Espaço Multiplico, lugar de gente que você tanto amou e como você mesmo disse a mim: imortalizou-os com sua câmara. Eu quis com esta entrevista ressaltar o seu calor e o valor que você dava a nossa cidade; queria que o mundo reconhecesse seu valor, que todos entendessem a grandeza de sua alma e a sensibilidade dos seus olhos cinematográficos.  Prazer em ter lhe conhecido. Adeus"
  
Observação: todas as entrevistas estão disponíveis neste blog, basta procurar o marca texto ENTREVISTAS
Sobre o falecimento do cineasta Gláucio Souza, veja:
http://www.santaritaemfoco.com.br/2014/07/claucio-sousa-policial-morre-apos.html

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